quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O banquete

Raul Seixas


"Ao entrar na porta principal vi todos os hóspedes sentados em volta duma grande mesa deliciando-se num banquetede pombos. Pombos vermelhos de sangue mortos pelos prórpios garfos de prata antiga que dr. Lírico encomendou para o jantar.
Dom Romano se fazia ajudar por um pontudo crucifixo de ouro maciço para penetrar na barriga da ave e tirar suas entranhas.
— Que mandem entrar as prostitutas! — grita o dr. Lírico impressionando seus convidados com um harém digno da opulência salomoniana. As prostitutas voltam-se enjoadas ante a cena do banquete que presenciam.
— Porcos! — elas gritam.
— Quem são elas para nos chamar de porcos? — levanta-se enfurecido o jovem filho do dr. Lírico e atira um pombo vermelho sangrando no rosto da 1ª da fila. A prostituta, com seus olhos roxos de noitesde luxúria, arranca das vestes um urubu vivo e atira na sala. O urubu esvoaça espantado e pousa no candelabro principal do teto, e saem todos correndo porta afora num vozerio das mariposas quesão.
Surge da cozinha um homemnegro e alto com uma venda negranos olhos segurando uma enorme bandeja prateada.
— Ah, a Bíblia!
Dom Romano toma da bandeja um livro preto e lê o versículo: Lucas 12:49: "E Jesus disse: Eu vim para lançar fogo sobre a Terra e bem quisera que já estivera a arder."

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