terça-feira, 24 de março de 2009

Águas de Março

Tom Jobim


É pau é pedra
É o fim do caminho
É um resto de toco
É um pouco sozinho...


É um caco de vidro
É a vida é o sol
É a noite é a morte
É um laço é o anzol...


É peroba do campo
É o nó da madeira
Caingá, Candeia
É o matita-pereira...


É madeira de vento
Tombo da ribanceira
É um mistério profundo
É o queira ou não queira...


É o vento ventando
É o fim da ladeira
É a viga é o vão
Festa da Cumeeira...


É a chuva chovendo
É conversa ribeira
Das águas de março
É o fim da canseira...


É o pé é o chão
É a marcha estradeira
Passarinho na mão
Pedra de atiradeira...


É uma ave no céu
É uma ave no chão
É um regato é uma fonte
É um pedaço de pão...


É o fundo do poço
É o fim do caminho
No rosto um desgosto
É um pouco sozinho...


É um estrepe é um prego
É uma ponta é um ponto
É um pingo pingando
É uma conta é um conto...


É um peixe é um gesto
É uma prata brilhando
É a luz da manhã
É o tijolo chegando...


É a lenha é o dia
É o fim da picada
É a garrafa de cana
Estilhaço na estrada...


É o projeto da casa
É o corpo na cama
É o carro enguiçado
É a lama é a lama...


É um passo é uma ponte
É um sapo é uma rã
É um resto de mato
Na luz da manhã...


São as águas de março
Fechando o verão
E a promessa de vida
No teu coração...


É uma cobra é um pau
É João é José
É um espinho na mão
É um corte no pé...


São as águas de março
Fechando o verão
É a promessa de vida
No teu coração...


É pau é pedra
É o fim do caminho
É um resto de toco
É um pouco sozinho...


É um passo é uma ponte
É um sapo é uma rã
É um belo horizonte
É uma febre terçã...


São as águas de março
Fechando o verão
É a promessa de vida
No teu coração...


...Pau, ...Edra, ...Im, ...Inho
...Esto, ...Oco, ...Ouco, ...Inho
...Aco, ...Idro, ...Ida, ...Ol
...Oite, ...Orte, ...Aço, ...Zol...


São as águas de março
Fechando o verão
É a promessa de vida
No teu coração...

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